Fable 5 Retorna, Mas o 'Interruptor' Administrativo Permanece: Uma Análise Profunda
Após semanas de interrupção global, a Fable 5 da Anthropic está de volta, mas as questões sobre controle e regulamentação de IA persistem. Este artigo detalha a saga, desde o lançamento da Mythos Preview até as negociações com o governo dos EUA e as implicações internacionais.
MundiX News·13 de julho de 2026·20 min de leitura·👁 1 views
A Fable 5, modelo de linguagem avançado da Anthropic, foi restabelecida para o público após quase três semanas de indisponibilidade global. O retorno ocorreu após um acordo entre a Anthropic e o governo dos EUA, que incluiu modificações nos mecanismos de segurança do modelo e a revogação das restrições de exportação. No entanto, a situação não retornou ao estado anterior: a versão mais poderosa, Mythos 5, permanece em acesso restrito, e a legalidade do mecanismo que permitiu ao governo desativar o modelo globalmente ainda não foi judicialmente testada.
Nos últimos meses, surgiram detalhes cruciais sobre os motivos do banimento, o arcabouço legal envolvido, as negociações entre a Anthropic e a Casa Branca, e as condições para o restabelecimento do acesso. Embora muitos relatos se concentrem no cerne da questão – o jailbreak, o desligamento abrupto e o conflito com a administração – dois episódios paralelos merecem atenção especial: a rejeição de uma proposta de verificação obrigatória de modelos por Trump pouco antes do banimento, e a subsequente discussão sobre a dependência de IA americana em negociações de nível G7. Este artigo visa apresentar a história completa, destacando que, embora o acesso tenha sido restaurado, o 'interruptor' administrativo que permite o controle global do modelo permanece inalterado.
Abril: A Ascensão da Mythos e a Preocupação Global
A saga teve início em 7 de abril com o anúncio da Mythos Preview. A Anthropic apresentou o modelo como uma ferramenta excepcionalmente poderosa para a identificação de vulnerabilidades, optando por não liberá-lo para o público geral. Segundo a empresa, em testes fechados, a Mythos identificou milhares de falhas inéditas em sistemas operacionais, navegadores e outros softwares críticos, além de ser capaz de construir cadeias de exploração multi-etapas. Uma avaliação independente do UK AI Security Institute, embora mais cautelosa, confirmou a capacidade do modelo, indicando que ele resolvia 73% das tarefas de nível expert em um teste CTF controlado e alcançava o final de uma simulação de ataque a uma rede corporativa em três de dez tentativas. A superioridade da Mythos em relação a outros modelos ainda é debatida, com pesquisadores sugerindo que resultados semelhantes podem ser replicados em modelos públicos mais acessíveis com orquestração adequada. Contudo, a própria Anthropic reconheceu o potencial perigo da nova capacidade, justificando sua decisão de não comercializá-la abertamente.
Em vez de um lançamento público, a Anthropic criou o Project Glasswing. Seus primeiros parceiros, incluindo gigantes como AWS, Apple, Cisco, Google, Microsoft e NVIDIA, receberam acesso antecipado à Mythos Preview para identificar e corrigir vulnerabilidades antes de uma disseminação mais ampla dessas capacidades. A atividade em torno do modelo se intensificou, indo além do que seria esperado para um novo lançamento de IA. Em 10 de abril, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reuniram-se com líderes dos maiores bancos. A preocupação central era a capacidade da Mythos de descobrir rapidamente vulnerabilidades desconhecidas em softwares bancários e de montar explorações funcionais, o que poderia acelerar ataques à infraestrutura bancária e representar um risco à estabilidade financeira. Os participantes foram instados a revisar suas defesas e se preparar para modelos com capacidades similares. Paralelamente, em 17 de abril, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, reuniu-se com a Casa Branca, e o Vice-Presidente conduziu discussões com líderes de grandes empresas de IA, incluindo Elon Musk e Sam Altman. A coordenação da resposta governamental foi delegada ao Diretor Nacional de Cibersegurança, Sean Cairncross, com o modelo sendo tratado primariamente como uma questão de cibersegurança e infraestrutura crítica. Preocupações semelhantes surgiram internacionalmente, com a Índia também discutindo os riscos da Mythos com seu setor financeiro. O Conselho Econômico Nacional dos EUA comparou a futura verificação de modelos de IA à certificação de medicamentos, defendendo a necessidade de garantir a segurança antes da liberação pública. No entanto, nem todos compartilhavam dessa visão; alguns investidores, como Ben Narasin, compararam Amodei a "o menino que gritou lobo", sugerindo que a ênfase excessiva nos perigos poderia ter levado o governo a reagir de forma exagerada. David Sacks, co-presidente do Conselho Presidencial de Ciência e Tecnologia, acusou a Anthropic de inflar medos para obter regulamentação favorável.
O Decreto Adiado e a Flexibilização da Verificação
O próximo capítulo se desenrolou em 21 de maio, com a cerimônia de assinatura de um decreto presidencial que foi subitamente cancelada. A intenção era estabelecer um processo de verificação para os modelos de IA mais potentes antes de seu lançamento público. A cerimônia, que já contava com a presença de representantes da indústria de tecnologia, foi adiada por decisão de Trump, que declarou não ter gostado de "certos aspectos" do documento. Relatos da imprensa indicaram que a versão inicial previa até 90 dias de verificação estatal prévia, encontrando resistência das empresas de tecnologia que temiam atrasos nos lançamentos. Doze dias depois, Trump assinou uma versão enfraquecida do decreto, reduzindo o período de verificação para 30 dias e tornando-o voluntário. O texto explicitamente declarou que o documento não criava licenciamento estatal obrigatório ou permissão prévia para o lançamento de modelos. No mesmo dia, a Anthropic expandiu o programa Glasswing para aproximadamente 200 organizações em mais de 15 países, construindo uma coalizão internacional de ciberdefesa, enquanto o governo estabelecia um procedimento voluntário de verificação. O regulador bancário da Índia, na mesma época, informou que, embora ainda não tivesse acesso à Mythos, já se preparava para as ameaças associadas. Isso representou um contraponto à distribuição controlada: os participantes do Glasswing podiam estudar o modelo internamente, enquanto outros precisavam se preparar para suas capacidades de forma reativa. O resultado foi um compromisso: laboratórios poderiam apresentar modelos avançados a especialistas governamentais, mas a decisão final de lançamento permanecia formalmente com as empresas.
9 a 12 de Junho: Lançamento Público e a Erosão da Confiança
Em 9 de junho, a Anthropic lançou a Fable 5 para o mercado geral e a Mythos 5 comercial para parceiros verificados. Para clareza, a Mythos Preview é a versão inicial e fechada; a Mythos 5 é o modelo comercial avançado com acesso controlado; a Fable 5 é o modelo de massa com restrições adicionais; Glasswing é o programa de acesso a modelos da classe Mythos; e Annex A é a lista americana de destinatários da Mythos 5 comercial. A Fable incorporou classificadores de segurança para áreas sensíveis como cibersegurança, biologia e química, além de tentativas de destilação de modelos. Ao acionar esses classificadores, as requisições eram redirecionadas para a Opus 4.8, uma versão mais fraca. A Mythos manteve suas capacidades cibernéticas completas para entidades governamentais e parceiros confiáveis. No entanto, a confiança entre a Anthropic e a administração já estava em declínio. O primeiro incidente ocorreu quando a sul-coreana SK Telecom obteve acesso à Mythos através do Glasswing expandido. Autoridades americanas, preocupadas com supostas ligações da empresa com a China, solicitaram à Anthropic a revogação do acesso, o que foi feito no mesmo dia. A SK Telecom negou as ligações, e a ironia foi que a empresa era investidora da Anthropic. Em 10 de junho, Amodei publicou um ensaio defendendo a regulamentação obrigatória de modelos de ponta, com o Estado tendo o poder de "bloquear ou dissuadir a implantação do modelo" se o risco fosse considerado inaceitável. O segundo incidente foi um relatório sobre o jailbreak da Fable, descoberto pela Amazon. A administração argumentou que a Fable era essencialmente a Mythos com filtros contornáveis, concedendo capacidades avançadas a usuários comuns. A Anthropic contestou, descrevendo o jailbreak como "estreito e não universal" e afirmando que as capacidades demonstradas não ofereciam um ganho único em relação a outros modelos disponíveis. A administração focou na capacidade absoluta do modelo de auxiliar na exploração de vulnerabilidades, enquanto a Anthropic enfatizou o risco adicional específico que a Fable representava. Detalhes técnicos do jailbreak não foram divulgados, impedindo uma avaliação independente. A WIRED destacou que os incidentes da SK Telecom e o jailbreak da Amazon eram questões distintas, mas a sequência política era clara: a capacidade da Anthropic de controlar os destinatários da Mythos e de manter as capacidades da Mythos sob a proteção da Fable foi questionada. Dois dias após o ensaio de Amodei, o governo ordenou o bloqueio de ambos os modelos da Anthropic.
O Desligamento Global e as Negociações Intensas
Em 12 de junho, o Secretário de Comércio, Howard Lutter, emitiu uma notificação à Anthropic exigindo permissão do Bureau of Industry and Security (BIS) para o acesso à Fable 5 e Mythos 5 por indivíduos estrangeiros globalmente, incluindo funcionários estrangeiros da Anthropic. Esta exigência, formalizada por uma "is-informed letter", não envolvia a transferência de pesos ou código-fonte, mas sim o uso de um serviço de nuvem. A diretiva não foi publicada no Federal Register, o que a caracterizou como uma ordem administrativa individual, obrigatória sob pena de sanções. Segundo relatos jornalísticos, a Anthropic teve cerca de 1,5 horas para cumprir a ordem, um prazo impossível para implementar um sistema de verificação de cidadania e status de todos os usuários. Consequentemente, a empresa desativou ambos os modelos globalmente. Embora o decreto de 2 de junho não tenha estabelecido um processo de verificação obrigatório, a administração utilizou a legislação de controle de exportações existente, um mecanismo mais rigoroso e sem critérios públicos, para impor o bloqueio. A Anthropic, que havia colaborado na formação do regime de controle e defendido a regulamentação, tornou-se a primeira a ser sujeita a essa aplicação obrigatória. A situação gerou um protesto da comunidade de segurança, com a publicação de uma "Open Letter on Transparent AI Cyber Protections", exigindo a remoção das restrições e propondo quatro princípios para futuras regulamentações: avaliação científica, procedimento democrático, aplicação transparente e escala mínima de intervenção. Durante o fim de semana seguinte ao desligamento, Amodei negociou com autoridades do governo, mas as negociações de 16 de junho terminaram sem acordo, pois o governo persistia na visão de que a remoção dos limitadores da Fable daria acesso às capacidades da Mythos. O conflito escalou para o nível internacional, com líderes do G7 discutindo IA e a possibilidade de um esquema de acesso para "trusted partners" para permitir que aliados selecionados tivessem acesso a modelos americanos avançados, embora um acordo geral não tenha sido alcançado. Em 23 de junho, a Legion LegalTech entrou com uma ação judicial federal, contestando a diretiva do Departamento de Comércio por exceder seus poderes. Subsequentemente, a liderança nas negociações da Anthropic mudou, com o CEO sendo afastado das conversas diretas e a linha de comunicação sendo assumida por outros executivos. O tom da administração tornou-se mais construtivo. Em 26 de junho, o governo autorizou o acesso à Mythos 5 comercial para uma lista confidencial de mais de 100 empresas e organizações americanas, conhecida como Annex A, focada em cibersegurança e infraestrutura crítica. É importante distinguir o Glasswing (cerca de 200 organizações internacionais com acesso à Mythos Preview) do Annex A (círculo mais restrito de destinatários americanos da Mythos 5 comercial). Em 30 de junho, o Departamento de Comércio anunciou que a licença de exportação não era mais necessária para ambos os modelos. No dia seguinte, a Anthropic restabeleceu o acesso à Fable 5 em regiões suportadas através de suas plataformas. O Departamento de Comércio não admitiu a ilegalidade da decisão original, retirando as restrições após a implementação de medidas adicionais pela Anthropic, incluindo compromissos voluntários de relatar jailbreaks e uso indevido mais rapidamente, expandir o acesso antecipado de especialistas governamentais e participar de avaliações conjuntas. A Anthropic também lançou um programa de recompensas e propôs um "Cyber Jailbreak Severity Framework" para padronizar a avaliação de jailbreaks. Após o restabelecimento do acesso, a Legion retirou seu processo, deixando a questão da legalidade da diretiva sem resolução judicial ou legislativa.
O Que Foi Restaurado e a Questão da Legalidade
A Fable 5 retornou às interfaces e APIs para o usuário comum, mas com modificações. A Anthropic reprocessou o classificador que deveria bloquear a técnica de jailbreak específica identificada pela Amazon, alcançando mais de 99% de eficácia em testes internos. No entanto, isso resultou em um aumento de falsos positivos em tarefas de programação e depuração, levando a requisições serem rejeitadas ou redirecionadas para a Opus 4.8. A Fable 5 também se tornou o modelo público mais caro da Anthropic, com preços de $10 por milhão de tokens de entrada e $50 por milhão de saída. Quanto à Mythos 5 comercial, o requisito geral de licenciamento foi removido, mas o modelo não foi disponibilizado em API pública, permanecendo em acesso controlado para um grupo restrito de organizações americanas. O acesso internacional não foi ampliado até 11 de julho. A Mythos Preview continuou existindo dentro do Glasswing, com alguns parceiros americanos mantendo acesso mesmo durante o bloqueio dos modelos comerciais, enquanto participantes estrangeiros foram afetados. Essencialmente, o mercado de massa recebeu de volta a Fable com uma camada de segurança adicional, enquanto as capacidades mais completas da Mythos permaneceram restritas a um círculo seleto.
A legalidade do "interruptor" administrativo permanece incerta. O Departamento de Comércio baseou sua ação no Export Control Reform Act (ECRA) e nas Export Administration Regulations (EAR), normas originalmente concebidas para o controle de bens, tecnologias e código-fonte, e não para o resultado de modelos de nuvem acessados remotamente. A lógica do governo parece ter sido que as capacidades perigosas obtidas por usuários estrangeiros, mesmo sem acesso direto aos pesos do modelo, constituíam um risco de exportação. No entanto, vários pontos enfraquecem essa argumentação: o usuário não recebia os pesos ou código, o modelo permanecia nos servidores da Anthropic; as normas EAR foram aplicadas a todos os usuários estrangeiros globalmente, sem as restrições geográficas ou de entidades específicas geralmente previstas; a lista de controle de exportações dos EUA não continha uma posição específica para acesso remoto a modelos de nuvem; e o próprio Departamento de Comércio, em consultas anteriores, havia concluído que o acesso remoto a serviços de nuvem não se enquadrava nas regulamentações EAR. A própria existência de um projeto de lei paralelo no Congresso sobre segurança de acesso remoto indicava a incerteza jurídica. Embora o governo pudesse argumentar que modelos avançados são tecnologias de duplo uso e que tribunais geralmente concedem ampla discricionariedade ao poder executivo em questões de segurança nacional, a ausência de um precedente judicial ou legislativo, devido à retirada do processo pela Legion, deixa a questão em aberto. O Departamento de Comércio estabeleceu um precedente de ação, a Anthropic acatou, mas os limites de seus poderes não foram testados.
Acesso por Cidadania, Organização e Conteúdo da Requisição
A saga Fable demonstrou um novo nível de segmentação no acesso à IA, ligando-o explicitamente à cidadania, empregador e propósito do trabalho. O primeiro nível de divisão foi por cidadania, com a diretiva de 12 de junho exigindo o bloqueio para "pessoas estrangeiras". O segundo nível foi por organização e natureza do trabalho, com a Mythos sendo restaurada para uma lista confidencial de empresas e agências americanas focadas em infraestrutura crítica, e não para o mercado em geral. O acesso foi permitido a funcionários estrangeiros dessas organizações, indicando que o local de trabalho se tornou um critério mais importante que a cidadania. O terceiro nível é implementado pelos mecanismos de segurança da Fable, que podem resultar em recusa ou em um modelo mais fraco dependendo do conteúdo da tarefa. Existem também exceções para especialistas verificados através do Cyber Verification Program (CVP), que permite a busca de vulnerabilidades e testes de penetração com menos restrições, mas com proibições para ações maliciosas e limitações geográficas. A Anthropic possui mecanismos de verificação de identidade, mas não os aplica universalmente para determinar cidadania e status de exportação. Se essa segmentação se tornar permanente, será necessária uma verificação mais complexa, considerando cidadania, residência, empregador, propósito do trabalho e licença de exportação, aproximando-se de um processo KYC bancário. Isso também levanta preocupações de privacidade, pois requisições sensíveis podem ser vinculadas a identidades confirmadas e potencialmente acessíveis às autoridades.
Reação Internacional e a Busca pela Soberania em IA
A centralização dos modelos de IA na nuvem, embora conveniente, cria um ponto único de falha controlável por empresas, plataformas de nuvem ou governos. Modelos de "open-weight" (com pesos abertos), por outro lado, são mais difíceis de controlar após o download, protegendo contra a perda súbita de modelos já implantados, embora ainda dependam de atualizações e infraestrutura de fornecedores estrangeiros. A saga Fable reforçou os argumentos a favor de modelos "open-weight" e múltiplos fornecedores independentes. Projetos de IA soberana, visando reduzir a dependência de plataformas estrangeiras, já estavam em andamento antes do incidente. A declaração de Arthur Mensch, CEO da Mistral, sobre a falta de alavancagem em um mundo de importação de serviços digitais dos EUA, ressoa com a situação. A Fable Saga serviu como um exemplo vívido dessa dependência, impulsionando a discussão sobre a necessidade de soberania em IA, como formulado por Macron no G7, destacando o risco de dependência excessiva de plataformas estrangeiras.
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A Fable 5, modelo de linguagem avançado da Anthropic, foi restabelecida para o público após quase três semanas de indisponibilidade global. O retorno ocorreu após um acordo entre a Anthropic e o governo dos EUA, que incluiu modificações nos mecanismos de segurança do modelo e a revogação das restrições de exportação. No entanto, a situação não retornou ao estado anterior: a versão mais poderosa, Mythos 5, permanece em acesso restrito, e a legalidade do mecanismo que permitiu ao governo desativar o modelo globalmente ainda não foi judicialmente testada.
Nos últimos meses, surgiram detalhes cruciais sobre os motivos do banimento, o arcabouço legal envolvido, as negociações entre a Anthropic e a Casa Branca, e as condições para o restabelecimento do acesso. Embora muitos relatos se concentrem no cerne da questão – o jailbreak, o desligamento abrupto e o conflito com a administração – dois episódios paralelos merecem atenção especial: a rejeição de uma proposta de verificação obrigatória de modelos por Trump pouco antes do banimento, e a subsequente discussão sobre a dependência de IA americana em negociações de nível G7. Este artigo visa apresentar a história completa, destacando que, embora o acesso tenha sido restaurado, o 'interruptor' administrativo que permite o controle global do modelo permanece inalterado.
Abril: A Ascensão da Mythos e a Preocupação Global
A saga teve início em 7 de abril com o anúncio da Mythos Preview. A Anthropic apresentou o modelo como uma ferramenta excepcionalmente poderosa para a identificação de vulnerabilidades, optando por não liberá-lo para o público geral. Segundo a empresa, em testes fechados, a Mythos identificou milhares de falhas inéditas em sistemas operacionais, navegadores e outros softwares críticos, além de ser capaz de construir cadeias de exploração multi-etapas. Uma avaliação independente do UK AI Security Institute, embora mais cautelosa, confirmou a capacidade do modelo, indicando que ele resolvia 73% das tarefas de nível expert em um teste CTF controlado e alcançava o final de uma simulação de ataque a uma rede corporativa em três de dez tentativas. A superioridade da Mythos em relação a outros modelos ainda é debatida, com pesquisadores sugerindo que resultados semelhantes podem ser replicados em modelos públicos mais acessíveis com orquestração adequada. Contudo, a própria Anthropic reconheceu o potencial perigo da nova capacidade, justificando sua decisão de não comercializá-la abertamente.
Em vez de um lançamento público, a Anthropic criou o Project Glasswing. Seus primeiros parceiros, incluindo gigantes como AWS, Apple, Cisco, Google, Microsoft e NVIDIA, receberam acesso antecipado à Mythos Preview para identificar e corrigir vulnerabilidades antes de uma disseminação mais ampla dessas capacidades. A atividade em torno do modelo se intensificou, indo além do que seria esperado para um novo lançamento de IA. Em 10 de abril, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, e o presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, reuniram-se com líderes dos maiores bancos. A preocupação central era a capacidade da Mythos de descobrir rapidamente vulnerabilidades desconhecidas em softwares bancários e de montar explorações funcionais, o que poderia acelerar ataques à infraestrutura bancária e representar um risco à estabilidade financeira. Os participantes foram instados a revisar suas defesas e se preparar para modelos com capacidades similares. Paralelamente, em 17 de abril, o CEO da Anthropic, Dario Amodei, reuniu-se com a Casa Branca, e o Vice-Presidente conduziu discussões com líderes de grandes empresas de IA, incluindo Elon Musk e Sam Altman. A coordenação da resposta governamental foi delegada ao Diretor Nacional de Cibersegurança, Sean Cairncross, com o modelo sendo tratado primariamente como uma questão de cibersegurança e infraestrutura crítica. Preocupações semelhantes surgiram internacionalmente, com a Índia também discutindo os riscos da Mythos com seu setor financeiro. O Conselho Econômico Nacional dos EUA comparou a futura verificação de modelos de IA à certificação de medicamentos, defendendo a necessidade de garantir a segurança antes da liberação pública. No entanto, nem todos compartilhavam dessa visão; alguns investidores, como Ben Narasin, compararam Amodei a "o menino que gritou lobo", sugerindo que a ênfase excessiva nos perigos poderia ter levado o governo a reagir de forma exagerada. David Sacks, co-presidente do Conselho Presidencial de Ciência e Tecnologia, acusou a Anthropic de inflar medos para obter regulamentação favorável.
O Decreto Adiado e a Flexibilização da Verificação
O próximo capítulo se desenrolou em 21 de maio, com a cerimônia de assinatura de um decreto presidencial que foi subitamente cancelada. A intenção era estabelecer um processo de verificação para os modelos de IA mais potentes antes de seu lançamento público. A cerimônia, que já contava com a presença de representantes da indústria de tecnologia, foi adiada por decisão de Trump, que declarou não ter gostado de "certos aspectos" do documento. Relatos da imprensa indicaram que a versão inicial previa até 90 dias de verificação estatal prévia, encontrando resistência das empresas de tecnologia que temiam atrasos nos lançamentos. Doze dias depois, Trump assinou uma versão enfraquecida do decreto, reduzindo o período de verificação para 30 dias e tornando-o voluntário. O texto explicitamente declarou que o documento não criava licenciamento estatal obrigatório ou permissão prévia para o lançamento de modelos. No mesmo dia, a Anthropic expandiu o programa Glasswing para aproximadamente 200 organizações em mais de 15 países, construindo uma coalizão internacional de ciberdefesa, enquanto o governo estabelecia um procedimento voluntário de verificação. O regulador bancário da Índia, na mesma época, informou que, embora ainda não tivesse acesso à Mythos, já se preparava para as ameaças associadas. Isso representou um contraponto à distribuição controlada: os participantes do Glasswing podiam estudar o modelo internamente, enquanto outros precisavam se preparar para suas capacidades de forma reativa. O resultado foi um compromisso: laboratórios poderiam apresentar modelos avançados a especialistas governamentais, mas a decisão final de lançamento permanecia formalmente com as empresas.
9 a 12 de Junho: Lançamento Público e a Erosão da Confiança
Em 9 de junho, a Anthropic lançou a Fable 5 para o mercado geral e a Mythos 5 comercial para parceiros verificados. Para clareza, a Mythos Preview é a versão inicial e fechada; a Mythos 5 é o modelo comercial avançado com acesso controlado; a Fable 5 é o modelo de massa com restrições adicionais; Glasswing é o programa de acesso a modelos da classe Mythos; e Annex A é a lista americana de destinatários da Mythos 5 comercial. A Fable incorporou classificadores de segurança para áreas sensíveis como cibersegurança, biologia e química, além de tentativas de destilação de modelos. Ao acionar esses classificadores, as requisições eram redirecionadas para a Opus 4.8, uma versão mais fraca. A Mythos manteve suas capacidades cibernéticas completas para entidades governamentais e parceiros confiáveis. No entanto, a confiança entre a Anthropic e a administração já estava em declínio. O primeiro incidente ocorreu quando a sul-coreana SK Telecom obteve acesso à Mythos através do Glasswing expandido. Autoridades americanas, preocupadas com supostas ligações da empresa com a China, solicitaram à Anthropic a revogação do acesso, o que foi feito no mesmo dia. A SK Telecom negou as ligações, e a ironia foi que a empresa era investidora da Anthropic. Em 10 de junho, Amodei publicou um ensaio defendendo a regulamentação obrigatória de modelos de ponta, com o Estado tendo o poder de "bloquear ou dissuadir a implantação do modelo" se o risco fosse considerado inaceitável. O segundo incidente foi um relatório sobre o jailbreak da Fable, descoberto pela Amazon. A administração argumentou que a Fable era essencialmente a Mythos com filtros contornáveis, concedendo capacidades avançadas a usuários comuns. A Anthropic contestou, descrevendo o jailbreak como "estreito e não universal" e afirmando que as capacidades demonstradas não ofereciam um ganho único em relação a outros modelos disponíveis. A administração focou na capacidade absoluta do modelo de auxiliar na exploração de vulnerabilidades, enquanto a Anthropic enfatizou o risco adicional específico que a Fable representava. Detalhes técnicos do jailbreak não foram divulgados, impedindo uma avaliação independente. A WIRED destacou que os incidentes da SK Telecom e o jailbreak da Amazon eram questões distintas, mas a sequência política era clara: a capacidade da Anthropic de controlar os destinatários da Mythos e de manter as capacidades da Mythos sob a proteção da Fable foi questionada. Dois dias após o ensaio de Amodei, o governo ordenou o bloqueio de ambos os modelos da Anthropic.
O Desligamento Global e as Negociações Intensas
Em 12 de junho, o Secretário de Comércio, Howard Lutter, emitiu uma notificação à Anthropic exigindo permissão do Bureau of Industry and Security (BIS) para o acesso à Fable 5 e Mythos 5 por indivíduos estrangeiros globalmente, incluindo funcionários estrangeiros da Anthropic. Esta exigência, formalizada por uma "is-informed letter", não envolvia a transferência de pesos ou código-fonte, mas sim o uso de um serviço de nuvem. A diretiva não foi publicada no Federal Register, o que a caracterizou como uma ordem administrativa individual, obrigatória sob pena de sanções. Segundo relatos jornalísticos, a Anthropic teve cerca de 1,5 horas para cumprir a ordem, um prazo impossível para implementar um sistema de verificação de cidadania e status de todos os usuários. Consequentemente, a empresa desativou ambos os modelos globalmente. Embora o decreto de 2 de junho não tenha estabelecido um processo de verificação obrigatório, a administração utilizou a legislação de controle de exportações existente, um mecanismo mais rigoroso e sem critérios públicos, para impor o bloqueio. A Anthropic, que havia colaborado na formação do regime de controle e defendido a regulamentação, tornou-se a primeira a ser sujeita a essa aplicação obrigatória. A situação gerou um protesto da comunidade de segurança, com a publicação de uma "Open Letter on Transparent AI Cyber Protections", exigindo a remoção das restrições e propondo quatro princípios para futuras regulamentações: avaliação científica, procedimento democrático, aplicação transparente e escala mínima de intervenção. Durante o fim de semana seguinte ao desligamento, Amodei negociou com autoridades do governo, mas as negociações de 16 de junho terminaram sem acordo, pois o governo persistia na visão de que a remoção dos limitadores da Fable daria acesso às capacidades da Mythos. O conflito escalou para o nível internacional, com líderes do G7 discutindo IA e a possibilidade de um esquema de acesso para "trusted partners" para permitir que aliados selecionados tivessem acesso a modelos americanos avançados, embora um acordo geral não tenha sido alcançado. Em 23 de junho, a Legion LegalTech entrou com uma ação judicial federal, contestando a diretiva do Departamento de Comércio por exceder seus poderes. Subsequentemente, a liderança nas negociações da Anthropic mudou, com o CEO sendo afastado das conversas diretas e a linha de comunicação sendo assumida por outros executivos. O tom da administração tornou-se mais construtivo. Em 26 de junho, o governo autorizou o acesso à Mythos 5 comercial para uma lista confidencial de mais de 100 empresas e organizações americanas, conhecida como Annex A, focada em cibersegurança e infraestrutura crítica. É importante distinguir o Glasswing (cerca de 200 organizações internacionais com acesso à Mythos Preview) do Annex A (círculo mais restrito de destinatários americanos da Mythos 5 comercial). Em 30 de junho, o Departamento de Comércio anunciou que a licença de exportação não era mais necessária para ambos os modelos. No dia seguinte, a Anthropic restabeleceu o acesso à Fable 5 em regiões suportadas através de suas plataformas. O Departamento de Comércio não admitiu a ilegalidade da decisão original, retirando as restrições após a implementação de medidas adicionais pela Anthropic, incluindo compromissos voluntários de relatar jailbreaks e uso indevido mais rapidamente, expandir o acesso antecipado de especialistas governamentais e participar de avaliações conjuntas. A Anthropic também lançou um programa de recompensas e propôs um "Cyber Jailbreak Severity Framework" para padronizar a avaliação de jailbreaks. Após o restabelecimento do acesso, a Legion retirou seu processo, deixando a questão da legalidade da diretiva sem resolução judicial ou legislativa.
O Que Foi Restaurado e a Questão da Legalidade
A Fable 5 retornou às interfaces e APIs para o usuário comum, mas com modificações. A Anthropic reprocessou o classificador que deveria bloquear a técnica de jailbreak específica identificada pela Amazon, alcançando mais de 99% de eficácia em testes internos. No entanto, isso resultou em um aumento de falsos positivos em tarefas de programação e depuração, levando a requisições serem rejeitadas ou redirecionadas para a Opus 4.8. A Fable 5 também se tornou o modelo público mais caro da Anthropic, com preços de $10 por milhão de tokens de entrada e $50 por milhão de saída. Quanto à Mythos 5 comercial, o requisito geral de licenciamento foi removido, mas o modelo não foi disponibilizado em API pública, permanecendo em acesso controlado para um grupo restrito de organizações americanas. O acesso internacional não foi ampliado até 11 de julho. A Mythos Preview continuou existindo dentro do Glasswing, com alguns parceiros americanos mantendo acesso mesmo durante o bloqueio dos modelos comerciais, enquanto participantes estrangeiros foram afetados. Essencialmente, o mercado de massa recebeu de volta a Fable com uma camada de segurança adicional, enquanto as capacidades mais completas da Mythos permaneceram restritas a um círculo seleto.
A legalidade do "interruptor" administrativo permanece incerta. O Departamento de Comércio baseou sua ação no Export Control Reform Act (ECRA) e nas Export Administration Regulations (EAR), normas originalmente concebidas para o controle de bens, tecnologias e código-fonte, e não para o resultado de modelos de nuvem acessados remotamente. A lógica do governo parece ter sido que as capacidades perigosas obtidas por usuários estrangeiros, mesmo sem acesso direto aos pesos do modelo, constituíam um risco de exportação. No entanto, vários pontos enfraquecem essa argumentação: o usuário não recebia os pesos ou código, o modelo permanecia nos servidores da Anthropic; as normas EAR foram aplicadas a todos os usuários estrangeiros globalmente, sem as restrições geográficas ou de entidades específicas geralmente previstas; a lista de controle de exportações dos EUA não continha uma posição específica para acesso remoto a modelos de nuvem; e o próprio Departamento de Comércio, em consultas anteriores, havia concluído que o acesso remoto a serviços de nuvem não se enquadrava nas regulamentações EAR. A própria existência de um projeto de lei paralelo no Congresso sobre segurança de acesso remoto indicava a incerteza jurídica. Embora o governo pudesse argumentar que modelos avançados são tecnologias de duplo uso e que tribunais geralmente concedem ampla discricionariedade ao poder executivo em questões de segurança nacional, a ausência de um precedente judicial ou legislativo, devido à retirada do processo pela Legion, deixa a questão em aberto. O Departamento de Comércio estabeleceu um precedente de ação, a Anthropic acatou, mas os limites de seus poderes não foram testados.
Acesso por Cidadania, Organização e Conteúdo da Requisição
A saga Fable demonstrou um novo nível de segmentação no acesso à IA, ligando-o explicitamente à cidadania, empregador e propósito do trabalho. O primeiro nível de divisão foi por cidadania, com a diretiva de 12 de junho exigindo o bloqueio para "pessoas estrangeiras". O segundo nível foi por organização e natureza do trabalho, com a Mythos sendo restaurada para uma lista confidencial de empresas e agências americanas focadas em infraestrutura crítica, e não para o mercado em geral. O acesso foi permitido a funcionários estrangeiros dessas organizações, indicando que o local de trabalho se tornou um critério mais importante que a cidadania. O terceiro nível é implementado pelos mecanismos de segurança da Fable, que podem resultar em recusa ou em um modelo mais fraco dependendo do conteúdo da tarefa. Existem também exceções para especialistas verificados através do Cyber Verification Program (CVP), que permite a busca de vulnerabilidades e testes de penetração com menos restrições, mas com proibições para ações maliciosas e limitações geográficas. A Anthropic possui mecanismos de verificação de identidade, mas não os aplica universalmente para determinar cidadania e status de exportação. Se essa segmentação se tornar permanente, será necessária uma verificação mais complexa, considerando cidadania, residência, empregador, propósito do trabalho e licença de exportação, aproximando-se de um processo KYC bancário. Isso também levanta preocupações de privacidade, pois requisições sensíveis podem ser vinculadas a identidades confirmadas e potencialmente acessíveis às autoridades.
Reação Internacional e a Busca pela Soberania em IA
A centralização dos modelos de IA na nuvem, embora conveniente, cria um ponto único de falha controlável por empresas, plataformas de nuvem ou governos. Modelos de "open-weight" (com pesos abertos), por outro lado, são mais difíceis de controlar após o download, protegendo contra a perda súbita de modelos já implantados, embora ainda dependam de atualizações e infraestrutura de fornecedores estrangeiros. A saga Fable reforçou os argumentos a favor de modelos "open-weight" e múltiplos fornecedores independentes. Projetos de IA soberana, visando reduzir a dependência de plataformas estrangeiras, já estavam em andamento antes do incidente. A declaração de Arthur Mensch, CEO da Mistral, sobre a falta de alavancagem em um mundo de importação de serviços digitais dos EUA, ressoa com a situação. A Fable Saga serviu como um exemplo vívido dessa dependência, impulsionando a discussão sobre a necessidade de soberania em IA, como formulado por Macron no G7, destacando o risco de dependência excessiva de plataformas estrangeiras.
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