OnlyFans: A Promessa de Independência Feminina Sob o Controle de Agentes e Agências
Uma investigação revela que, por trás da promessa de autonomia no OnlyFans, uma indústria de intermediários controla contas, passaportes e finanças de criadoras de conteúdo, muitas vezes explorando vulnerabilidades.
MundiX News·29 de junho de 2026·10 min de leitura·👁 1 views
O OnlyFans surgiu com a promessa de empoderar mulheres, oferecendo independência financeira e controle total sobre seu conteúdo e ganhos. No entanto, uma investigação aprofundada do The Guardian expõe uma realidade sombria: uma vasta indústria de intermediários, incluindo gerentes, agências e até cursos online, emergiu, posicionando-se entre as criadoras e seu público. Esses agentes buscam ativamente mulheres, prometendo riqueza rápida, mas, na prática, controlam suas contas, documentos e uma parcela significativa de seus rendimentos.
Um dos nomes proeminentes nesse cenário é Markuss Kochs, conhecido como Markuss Hussle. Aos 27 anos, ele cultiva uma imagem de sucesso financeiro ostensivo em suas redes sociais, com carros de luxo, jatinhos particulares e viagens extravagantes. Seus conteúdos, que se assemelham a cursos de trading ou criptomoedas, na verdade ensinam a gerenciar contas de mulheres no OnlyFans. Kochs, que se autodenomina um "OnlyFans Manager", cobra 50% dos lucros das criadoras que gerencia e vende programas de treinamento por US$ 8.000, ensinando outros a montar suas próprias agências. Ele explicitamente liga o sucesso desse negócio à solidão masculina, onde a demanda por atenção e conteúdo personalizado impulsiona o modelo de negócio dos intermediários. Utilizando táticas de engenharia social, esses gerentes manipulam as emoções e aspirações de potenciais criadoras.
A escala desse mercado é impressionante. Enquanto o OnlyFans emprega diretamente apenas 42 pessoas, a plataforma registrou US$ 7,2 bilhões em receita em 2024, com 377 milhões de contas. São 4,6 milhões de criadores ativos, e mais de US$ 25 bilhões foram pagos a eles desde o lançamento em 2016. A plataforma retém 20% da receita, com o restante formalmente destinado ao criador. Contudo, a entrada de gerentes ou agências adiciona outra camada de dedução significativa. A narrativa do OnlyFans como um refúgio seguro, livre das antigas estruturas da indústria pornográfica, é desafiada por essa nova indústria. O controle, que deveria ser das mulheres, volta a se concentrar nas mãos de intermediários que falam a linguagem do marketing e da análise de dados, mas cujo produto final é o acesso a conteúdo íntimo.
As táticas de recrutamento empregadas por esses gerentes são preocupantes. Vídeos de treinamento analisados revelam que eles aconselham a buscar candidatas entre conhecidas de escolas e universidades, especialmente mulheres entre 18 e 25 anos, que já publicam fotos sensuais online. A justificativa é que essas jovens, muitas vezes, não possuem conhecimento de negócios e aceitam contratos sem questionamentos. A anonimidade dos gerentes é outro ponto crítico; homens podem operar contas, interagir com assinantes e gerenciar finanças sem serem identificados, enquanto as criadoras, que produzem o conteúdo, raramente possuem essa proteção. A relutância de uma criadora em expor o rosto ou o medo da reação familiar pode ser vista como um obstáculo ao potencial de lucro, segundo esses gerentes.
O crescente mercado tem atraído críticas de políticos e órgãos reguladores. Um documentário da BBC, "OnlyFans: Inside the Machine", trouxe à tona casos de pressão e abuso por parte de gerentes. Deputados e comissários de direitos humanos pediram investigações parlamentares, argumentando que plataformas que lucram com conteúdo sexual devem ter mecanismos mais robustos para identificar exploração, coerção, tráfico humano e violência. O setor é heterogêneo, variando de grandes agências em metrópoles globais a gerentes individuais que monetizam contas de parceiras ou conhecidas. Em sua forma mais extrema, o ecossistema do OnlyFans se entrelaça com cursos online, grupos de Telegram e fóruns onde homens discutem estratégias para recrutar, gerenciar equipes de "chatters" (responsáveis por interagir com assinantes) e maximizar pagamentos.
Ex-funcionários de agências relatam esquemas de recrutamento fraudulentos, onde jovens são abordadas em plataformas como TikTok e Instagram com base em sua aparência e conteúdo já publicado. A juventude aparente é vista como um fator de maior potencial de ganho. Algumas agências chegam a criar personas fictícias, promovendo uma criadora de 20 anos como "quase menor de idade" para atrair um público específico. A pressão para produzir conteúdo mais explícito geralmente não é imediata, mas surge gradualmente, à medida que a criadora é informada que seu rendimento estagnou e que a única forma de aumentar os lucros é ultrapassar seus limites iniciais. Autoras de sucesso, como Ari Kitsya, relatam receber propostas de gerentes desde a adolescência, com promessas de fama e fortuna, e apontam que a maioria das mulheres na indústria já enfrentou contratos desvantajosos, enganos ou pressões para realizar atos indesejados.
A ex-funcionária de uma agência australiana, Victoria Sinis, descreve o processo de recrutamento como uma fachada, onde festas e casas luxuosas criavam a ilusão de uma oportunidade glamorosa. Ela percebeu que estava ajudando a atrair pessoas para um negócio cujas consequências elas desconheciam. Agora, ela alerta pais sobre os riscos de suas filhas receberem tais propostas nas redes sociais. Nem todas as criadoras veem os gerentes como um mal absoluto; um bom profissional pode, de fato, aumentar o alcance e a receita, além de gerenciar a rotina de "chatting", a comunicação flertante com fãs que incentiva pagamentos adicionais. Frequentemente, gerentes contratam pessoas em países com salários mais baixos, como Filipinas ou Nigéria, para realizar essa comunicação, criando uma falsa sensação de intimidade para o assinante.
Um aspecto particularmente alarmante do mercado é a troca de contas e criadoras entre gerentes. Uma análise de um grande grupo de Telegram com mais de 10.000 membros revelou que as mulheres são tratadas como mercadorias, com "modelos" sendo oferecidas com detalhes de país, idade, percentual de lucro e condições de transferência. Algumas mensagens mencionam a venda de contas com "período de garantia". O risco é amplificado pelo acesso dos gerentes a documentos de identidade e credenciais de redes sociais e sistemas de pagamento. Caso uma criadora decida se desvincular, esses dados podem ser usados como ferramenta de coerção. Relatos indicam que gerentes discutem estratégias legais, ameaças e retenção de controle de contas em fóruns privados.
Em resposta, o OnlyFans afirma que a plataforma foi concebida para que os criadores controlem e monetizem seu próprio conteúdo. A empresa declara não apoiar nem ter parcerias com agências e não poder influenciar contratos externos. Em casos de denúncias, a plataforma alega restringir o acesso, realizar investigações e tomar medidas para garantir que os criadores mantenham o controle de suas páginas. Críticos consideram essa resposta insuficiente. Argumentam que, se a plataforma lucra com conteúdo sexual e um mercado de intermediários floresce ao seu redor, a questão do controle transcende o status formal do criador. Mulheres podem iniciar suas contas voluntariamente, mas acabam presas em dívidas, ameaças legais, medo de vazamentos de conteúdo e pressão de indivíduos que lucram com seu trabalho.
A trajetória do OnlyFans ilustra como modelos de exploração antigos podem se adaptar ao ambiente digital, adotando uma nova linguagem. Em vez de estúdios e produtores, surgem agências, dashboards, métricas de conversão e cursos de escalabilidade. Embora a fachada seja de empreendedorismo online, a questão central permanece: quem realmente controla o corpo, a voz, a imagem e a renda de uma mulher quando sua conta se torna o negócio de outra pessoa?
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O OnlyFans surgiu com a promessa de empoderar mulheres, oferecendo independência financeira e controle total sobre seu conteúdo e ganhos. No entanto, uma investigação aprofundada do The Guardian expõe uma realidade sombria: uma vasta indústria de intermediários, incluindo gerentes, agências e até cursos online, emergiu, posicionando-se entre as criadoras e seu público. Esses agentes buscam ativamente mulheres, prometendo riqueza rápida, mas, na prática, controlam suas contas, documentos e uma parcela significativa de seus rendimentos.
Um dos nomes proeminentes nesse cenário é Markuss Kochs, conhecido como Markuss Hussle. Aos 27 anos, ele cultiva uma imagem de sucesso financeiro ostensivo em suas redes sociais, com carros de luxo, jatinhos particulares e viagens extravagantes. Seus conteúdos, que se assemelham a cursos de trading ou criptomoedas, na verdade ensinam a gerenciar contas de mulheres no OnlyFans. Kochs, que se autodenomina um "OnlyFans Manager", cobra 50% dos lucros das criadoras que gerencia e vende programas de treinamento por US$ 8.000, ensinando outros a montar suas próprias agências. Ele explicitamente liga o sucesso desse negócio à solidão masculina, onde a demanda por atenção e conteúdo personalizado impulsiona o modelo de negócio dos intermediários. Utilizando táticas de engenharia social, esses gerentes manipulam as emoções e aspirações de potenciais criadoras.
A escala desse mercado é impressionante. Enquanto o OnlyFans emprega diretamente apenas 42 pessoas, a plataforma registrou US$ 7,2 bilhões em receita em 2024, com 377 milhões de contas. São 4,6 milhões de criadores ativos, e mais de US$ 25 bilhões foram pagos a eles desde o lançamento em 2016. A plataforma retém 20% da receita, com o restante formalmente destinado ao criador. Contudo, a entrada de gerentes ou agências adiciona outra camada de dedução significativa. A narrativa do OnlyFans como um refúgio seguro, livre das antigas estruturas da indústria pornográfica, é desafiada por essa nova indústria. O controle, que deveria ser das mulheres, volta a se concentrar nas mãos de intermediários que falam a linguagem do marketing e da análise de dados, mas cujo produto final é o acesso a conteúdo íntimo.
As táticas de recrutamento empregadas por esses gerentes são preocupantes. Vídeos de treinamento analisados revelam que eles aconselham a buscar candidatas entre conhecidas de escolas e universidades, especialmente mulheres entre 18 e 25 anos, que já publicam fotos sensuais online. A justificativa é que essas jovens, muitas vezes, não possuem conhecimento de negócios e aceitam contratos sem questionamentos. A anonimidade dos gerentes é outro ponto crítico; homens podem operar contas, interagir com assinantes e gerenciar finanças sem serem identificados, enquanto as criadoras, que produzem o conteúdo, raramente possuem essa proteção. A relutância de uma criadora em expor o rosto ou o medo da reação familiar pode ser vista como um obstáculo ao potencial de lucro, segundo esses gerentes.
O crescente mercado tem atraído críticas de políticos e órgãos reguladores. Um documentário da BBC, "OnlyFans: Inside the Machine", trouxe à tona casos de pressão e abuso por parte de gerentes. Deputados e comissários de direitos humanos pediram investigações parlamentares, argumentando que plataformas que lucram com conteúdo sexual devem ter mecanismos mais robustos para identificar exploração, coerção, tráfico humano e violência. O setor é heterogêneo, variando de grandes agências em metrópoles globais a gerentes individuais que monetizam contas de parceiras ou conhecidas. Em sua forma mais extrema, o ecossistema do OnlyFans se entrelaça com cursos online, grupos de Telegram e fóruns onde homens discutem estratégias para recrutar, gerenciar equipes de "chatters" (responsáveis por interagir com assinantes) e maximizar pagamentos.
Ex-funcionários de agências relatam esquemas de recrutamento fraudulentos, onde jovens são abordadas em plataformas como TikTok e Instagram com base em sua aparência e conteúdo já publicado. A juventude aparente é vista como um fator de maior potencial de ganho. Algumas agências chegam a criar personas fictícias, promovendo uma criadora de 20 anos como "quase menor de idade" para atrair um público específico. A pressão para produzir conteúdo mais explícito geralmente não é imediata, mas surge gradualmente, à medida que a criadora é informada que seu rendimento estagnou e que a única forma de aumentar os lucros é ultrapassar seus limites iniciais. Autoras de sucesso, como Ari Kitsya, relatam receber propostas de gerentes desde a adolescência, com promessas de fama e fortuna, e apontam que a maioria das mulheres na indústria já enfrentou contratos desvantajosos, enganos ou pressões para realizar atos indesejados.
A ex-funcionária de uma agência australiana, Victoria Sinis, descreve o processo de recrutamento como uma fachada, onde festas e casas luxuosas criavam a ilusão de uma oportunidade glamorosa. Ela percebeu que estava ajudando a atrair pessoas para um negócio cujas consequências elas desconheciam. Agora, ela alerta pais sobre os riscos de suas filhas receberem tais propostas nas redes sociais. Nem todas as criadoras veem os gerentes como um mal absoluto; um bom profissional pode, de fato, aumentar o alcance e a receita, além de gerenciar a rotina de "chatting", a comunicação flertante com fãs que incentiva pagamentos adicionais. Frequentemente, gerentes contratam pessoas em países com salários mais baixos, como Filipinas ou Nigéria, para realizar essa comunicação, criando uma falsa sensação de intimidade para o assinante.
Um aspecto particularmente alarmante do mercado é a troca de contas e criadoras entre gerentes. Uma análise de um grande grupo de Telegram com mais de 10.000 membros revelou que as mulheres são tratadas como mercadorias, com "modelos" sendo oferecidas com detalhes de país, idade, percentual de lucro e condições de transferência. Algumas mensagens mencionam a venda de contas com "período de garantia". O risco é amplificado pelo acesso dos gerentes a documentos de identidade e credenciais de redes sociais e sistemas de pagamento. Caso uma criadora decida se desvincular, esses dados podem ser usados como ferramenta de coerção. Relatos indicam que gerentes discutem estratégias legais, ameaças e retenção de controle de contas em fóruns privados.
Em resposta, o OnlyFans afirma que a plataforma foi concebida para que os criadores controlem e monetizem seu próprio conteúdo. A empresa declara não apoiar nem ter parcerias com agências e não poder influenciar contratos externos. Em casos de denúncias, a plataforma alega restringir o acesso, realizar investigações e tomar medidas para garantir que os criadores mantenham o controle de suas páginas. Críticos consideram essa resposta insuficiente. Argumentam que, se a plataforma lucra com conteúdo sexual e um mercado de intermediários floresce ao seu redor, a questão do controle transcende o status formal do criador. Mulheres podem iniciar suas contas voluntariamente, mas acabam presas em dívidas, ameaças legais, medo de vazamentos de conteúdo e pressão de indivíduos que lucram com seu trabalho.
A trajetória do OnlyFans ilustra como modelos de exploração antigos podem se adaptar ao ambiente digital, adotando uma nova linguagem. Em vez de estúdios e produtores, surgem agências, dashboards, métricas de conversão e cursos de escalabilidade. Embora a fachada seja de empreendedorismo online, a questão central permanece: quem realmente controla o corpo, a voz, a imagem e a renda de uma mulher quando sua conta se torna o negócio de outra pessoa?
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